terça-feira, 7 de setembro de 2010

Empecilhos

Quem, no passado havia conhecido Clara, jamais a imaginaria naquela situação. Esparramada em um sofá, desprovida de sonhos e conformada com a realidade.

Clarinha ( enquanto menina ) vivia estudando teorias, discutindo propostas, colocando idéias em prática, até por política ela se interessava.

- Menina inteligente! - Diziam uns. Outros discordavam, achavam a jovem ameaçadora:

- Ela questiona demais, se intromete demais! Veio semear a discórdia! - Esbravejavam.

Clarinha, por sua vez, era apenas diferente da maioria. Movida por sentimentos revolucionários, brigava sempre pelo o que considerava certo. Se caia, levantava, se era agredida, revidava. Lutava por justiça, bom senso e reprimia a covardia.

A jovem se aliou aos mais fracos, organizou greves, participou de passeatas. Ora era pacífica, ora apelava para pancada. Clarinha conquistou vitórias, fez amigos, inimigos, porém o céu era o limite! Clara queria mais, queria mudar o que não pretendia ser mudado, o mundo!

Contudo, certo dia, Clara conheceu João e os dois se apaixonaram. E ao invés de Filosofia ou Sociologia a adolescente preferia discutir sobre intimidades. O casal fazia planos para o futuro e neles as únicas mudanças as quais se referiam eram sobre moradia e hábitos diários.
Clarinha, quando questionada sobre seus planos passados ( igualdade, fraternidade e blablabla ), sempre afirmava que em um futuro breve, daria continuidade. Isso nunca aconteceu, pois ao se casar teve dois filhos que alienados, idolatravam a TV, a Internet e a música pop. A rotina era tão desgatante que buscou apoio na religião. E desde então, quase tudo era pecado! Já não se podia questionar tanto, nem se intrometer demais. Greve? Só de sexo quando por acaso descobria infidelidades do marido. Amigos tinha aos montes ( mesmo que fossem falsos ), de inimigos queria distância e o céu? Ah, este se encontrava tão longe, que procurou se rodear de limites terrenos mesmo.

Por fim, hoje distraída em uma poltrona de couro, seus conflitos familiares, morais e emocionais eram tão maiores que o mundo, que não havia espaço para nenhum outro ideal. Mas de sobra havia conformidade, afinal o que mais? Diante de tantos empecilhos cuja sociedade nos impõe de forma a esquecermos todo o resto.




- Bárbara Helohá -

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